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| Juarez Aparecido de Paula Cunha, presidente dos Correios: Bolsonaro disse que o militar se comportou como "sindicalista" (José Cruz/Agência Brasil) |
Brasília – O
presidente Jair Bolsonaro anunciou
ontem a demissão do terceiro general de seu governo em três dias. Após serem
afastados Carlos Alberto dos Santos Cruz da Secretaria de Governo e
Franklimberg Freitas da presidência da Funai, ele decidiu exonerar do comando
dos Correios o
general Juarez de Paula Cunha.
Segundo
o presidente, Cunha “foi ao Congresso e agiu como sindicalista” ao criticar a
privatização da estatal e tirar fotos com parlamentares da oposição. “Aí
complica”, disse
Bolsonaro em café da manhã com jornalistas no Palácio do
Planalto. O Estado participou da entrevista.
O
general assumiu
a presidência dos Correios ainda no governo de Michel Temer.Ele
chegou ao posto por indicação de Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD.
Bolsonaro decidiu mantê-lo no cargo, mas Cunha era, na verdade, mais ligado ao
vice-presidente, o general Hamilton Mourão.
O
chefe dos Correios foi à Câmara na semana passada para uma audiência na
Comissão de Participação Legislativa e adotou um discurso contrário à ideia do
governo Bolsonaro de privatizar a estatal. Em sua fala, disse que se trata de
uma empresa “estratégica” e “autossustentável” e que os economistas não têm
condições de calcular o “custo social” dos serviços por ela prestados.
“Eu não queria falar de privatização, até
porque não é problema meu, mas tenho de dizer: se privatizarem uma parte dos
Correios, que acredito que será do lado bom (que dá lucro), o que tirar daqui
vai faltar lá (nos demais municípios), vai faltar do outro lado”, disse Cunha
durante a audiência.
Parte
do recado foi publicada pela conta oficial dos Correios no Twitter e
compartilhada pelo ministro. Dois dias depois, o próprio presidente foi à rede
social defender a venda da estatal.
“Serviços
melhores e mais baratos só podem existir com menos Estado e mais concorrência,
via iniciativa privada. Entre as estatais, a privatização dos Correios ganha
força em nosso governo”, publicou.
Segundo
um integrante do governo, já havia descontentamento com a postura de Cunha.
Causava desconforto, por exemplo, o fato de o presidente dos Correios evitar se
reportar ao seu chefe, o ministro de Ciência e Tecnologia. Isso acontecia,
segundo essa fonte, porque Cunha é general do Exército, enquanto o astronauta
Marcos Pontes, que comanda a pasta, é tenente-coronel da Aeronáutica – que
seria o equivalente a uma patente inferior a sua.
Cunha
não esperava a demissão. Ela foi anunciada pelo presidente já no final do
encontro com os jornalistas quando as perguntas já haviam sido encerradas. O
presidente havia tirado uma foto e decidiu conversar mais um pouco. Sem ser
questionado diretamente sobre o assunto, falou da decisão.
Cunha
tinha, por exemplo, uma audiência marcada para a semana que vem no Senado para
debater justamente a privatização dos Correios.
Sucessor
Não
está definido ainda quem será o próximo chefe da estatal. Bolsonaro disse que
chegou a oferecer o posto ao general Santos Cruz, mas que ainda não há
definição.
Segundo
o presidente, o ex-ministro da Secretaria de Governo é “excepcional” e, por
isso, gostaria que ele permanecesse no governo em outro posto.
Ele
disse ainda que a saída de Santos Cruz, a quem conhece desde a década de 1980 e
se refere como amigo, foi uma “separação amigável”. “Não adianta querer
esconder, problemas acontecem. Mas ele continua no meu coração”, afirmou.
O
general foi avisado de sua demissão na quinta-feira, 13, em conversa com
Bolsonaro no Planalto. Apesar de ter sido substituído por outro militar, o
general Luiz Eduardo Ramos, seu afastamento foi resultado de pressão da chamada
ala ideológica do governo. O grupo já havia conseguido demitir um civil,
Gustavo Bebianno, que foi o primeiro ministro a cair. Bolsonaro destacou a
experiência de Ramos como assessor parlamentar e disse que, por isso, ele vai
“ajudar muito” na articulação política.
No encontro com jornalistas, o presidente
foi questionado sobre a razão de aliados que o acompanharam na campanha estarem
fora do governo. Foram citados os nomes do ex-senador Magno Malta, que não
chegou a ser nomeado para cargos, de Bebianno e de Leticia Catelani, que
ocupava cargo na Apex, agência de promoção das exportações do País e foi
demitida.
O
presidente disse que a todos foram dadas oportunidades. Segundo ele, sua
admiração por Malta continua. Mas Bebianno é “página virada” e Letícia tinha
“autoridade exagerada”. “Cada um no seu quadrado”, disse o presidente. “Não
posso sacrificar o governo.” Procurados, Correios e Cunha não comentaram. O
Ministério de Ciência e Tecnologia disse que a exoneração de Cunha será feita
na semana que vem. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

